O cuidado institucionalizado de pessoas idosas no Brasil passou por transformações profundas nas últimas décadas. Ao analisarmos o mapeamento das Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs) em 2026, nos deparamos com uma rede robusta, mas ainda marcada por desigualdades, desafios regulatórios e operacionais. Com base no recente artigo publicado pela Revista Cuidar (https://revistacuidar.com.br/) e dados levantados pela Frente Nacional de Fortalecimento às ILPI, apresentamos um panorama sobre as realidades e barreiras que persistem nesse universo.
O cenário nacional: estrutura, número e perfil das ILPIs.
Segundo a pesquisa realizada o Brasil conta atualmente com cerca de 6.200 ILPIs, responsáveis por acolher aproximadamente 160 mil pessoas idosas, isso representa apenas 0,5% da população brasileira com mais de 60 anos. Essa proporção revela não só o crescimento demográfico da população idosa, mas também a limitação de acesso a esse tipo de serviço especializado.
Predomina uma forte presença das ILPIs filantrópicas (privadas sem fins econômicos ou lucrativos), que representam aproximadamente 65% do total nacional. Essas instituições, em geral, dependem de recursos provenientes de doações, parcerias públicas e incentivos para manter suas atividades. Inclusive grande parte dessas ILPIs beneficentes tem como principal fonte de receitas financeiras o montante das contribuições mensais recebidas das próprias pessoas idosas assistidas. Em muitos casos essa fonte de receitas de natureza legal e contratual (privada) é superior aos repasses governamentais. Evidente que demonstra indiferença e descaso do Poder Público!
- ILPIs filantrópicas (beneficentes): cerca de 65%
- ILPIs privadas (empresariais): 35%, enfrentando desafios regulatórios e financeiros importantes.
As ILPIs privadas com fins lucrativos (empresariais), por sua vez, lidam com custos mensais elevados, que variam de R$ 6.500 a R$ 14.000 por vaga, dependendo do grau de dependência da pessoa idosa e da gama de serviços oferecidos. Essas informações são corroboradas por estudos recentes do setor (envelhecimento amplia demanda por ILPIs no Brasil).
Onde estão as ILPIs? Concentração geográfica e desigualdades regionais
Nossa vivência junto a conselhos municipais e gestores de ILPIs aponta para uma realidade já conhecida e evidenciada por pesquisas: as ILPIs estão concentradas principalmente nas regiões Sudeste e Sul, especialmente em áreas metropolitanas. Essa concentração expõe as desigualdades regionais. O estados do Norte e Nordeste ainda apresentam déficits severos na oferta de vagas, o que impacta diretamente o acesso ao cuidado institucionalizado.
Regiões metropolitanas, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, reúnem grande número de instituições. Já em municípios pequenos e afastados, há carência severa de ILPIs, levando muitas pessoas idosas e familiares a enfrentarem deslocamentos, dificuldades financeiras e filas de espera.
Esse cenário reforça a urgência em expandir e descentralizar as políticas públicas voltadas ao envelhecimento, buscando equidade territorial no acesso ao cuidado.
Fragilidade operacional e desafios do dia a dia.
As ILPIs enfrentam uma série de fragilidades operacionais, principalmente aquelas de perfil filantrópico ou de menor porte. Essa fragilidade se manifesta por falta de recursos para investimentos em infraestrutura, baixa capacitação de equipes e problemas recorrentes em seguir normativas atualizadas.
Como exemplo alarmante, diagnósticos recentes do Ministério Público de Minas Gerais apontaram irregularidades em 100% das ILPIs e residências inclusivas fiscalizadas, incluindo situações como idosos amarrados, partilha de itens de higiene, superlotação e alimentação inadequada (idosos em gaiolas e partilha de escova de dentes). Não se trata de casos isolados, esses desafios ainda marcam grande parte do setor.
Diante desses contornos preocupantes, reforçamos o quanto é fundamental investir em planos de atenção integral à saúde da pessoa idosa, regimento atualizado, protocolos claros de acolhimento e desacolhimento, reforma estatutária, proteção de dados pessoais, captação de informações internas e orientações técnicas e jurídicas para aprimorar a governança institucional.
Compliance e Integridade Institucional: pilares para o cumprimento das finalidades da ILPI.
Falta de formação especializada e impacto para o atendimento.
Outro ponto crítico está na lacuna de formação especializada das equipes das ILPIs. Muitas vezes, gestores, técnicos e cuidadores ingressam nessas instituições sem acesso prévio a capacitações regulares ou conteúdo qualificado.
Por consequência, observa-se alta rotatividade de pessoal, fragilidade nas práticas de cuidado e dificuldade de atualização frente às normativas sanitárias ou exigências de conselhos reguladores e dos atores do controle social fiscalizatório. O fortalecimento institucional passa, obrigatoriamente, pela educação continuada das equipes. Vale destacar que o segmento das ILPIs é muito dinâmico, ou seja, está em constante transformação.

O desafio do cadastro nacional unificado
Uma dor que compartilhamos com gestores de todo o país é a ausência de um cadastro nacional unificado de ILPIs. Essa carência prejudica não só o controle social e fiscalizatório, mas também emperra avanços em políticas públicas, prevenção de irregularidades e mapeamento mais fiel das necessidades da população idosa.
- Dificuldade em conhecer o número real de instituições em funcionamento;
- Falta de dados padronizados sobre vagas, perfis de pessoas idosas e serviços ofertados;
- Obstáculos para a definição de critérios de financiamento e fiscalização.
Fortalecimento institucional: caminhos e soluções.
Durante nossas atividades profissionais, constatamos que o fortalecimento das ILPIs depende de ações transversais, envolvendo não só recursos, mas também inovação, capacitação e acompanhamento rigoroso. Destacamos algumas recomendações práticas:
- Construção de ambiente institucional em conformidade com o ordenamento jurídico brasileiro;
- Aprimoramento da gestão documental e de processos internos (compliance - integridade institucional);
- Capacitações periódicas e formação continuada das equipes;
- Fortalecimento dos Conselhos Municipais da Pessoa Idosa;
- Investimento em tecnologia e tratamento de dados institucionais e pessoais;
- Aperfeiçoamento, atualização e revisão da legislação pertinente e de normativas técnicas;
- Articulação entre todos os atores das Redes Locais do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), do Controle Social Fiscalizatório, das Redes Locais de Proteção da Pessoa Idosa, do Poder Público, da Defensoria Pública, do Ministério Público - com os representantes das ILPIs para busca de soluções de fragilidades e problemas e de regulações coerentes e possíveis.
Entendemos que os atores desse imenso e complexo setor precisam urgentemente dialogar, buscar entendimentos, criar planos de ações e instrumentos que garantam meios e condições para o envelhecimento digno e saudável das pessoas idosas. Enquanto a população idosa cresce, ainda lidamos com problemas crônicos e históricos. Há um atraso gigantesco entre os objetivos legais e a realidade! A pessoa idosa tem pressa!
O papel dos conselhos e da legislação.
A atuação dos conselhos municipais, estaduais e nacional da pessoa idosa é fundamental para corrigir distorções históricas, propor novas normativas e garantir financiamento público adequado. Está em debate a atualização da legislação, a classificação jurídica das ILPIs e o modelo mais sustentável de financiamento, temas que tocamos em diversas agendas públicas e formações para gestores (debates do Senado sobre o funcionamento das ILPIs).
Fortalecer essas instâncias é uma das nossas principais bandeiras, porque só assim será possível ampliar o acesso ao cuidado de qualidade e corrigir desigualdades regionais.
Conclusão.
O mapa das ILPIs no Brasil, em 2026, reflete avanço, mas também revela desafios ainda presentes para garantir cuidado digno, equitativo e seguro às pessoas idosas.
As ILPIs de todas as naturezas não podem continuar tentando mobilizações fragmentadas. A necessidade de representatividade regional, estadual e nacional é constante. Articulações singulares não geram força e nem efeitos esperados.
Os representantes das ILPIs precisam ocupar espaços públicos e privados para exposição da realidade, das fragilidades e dos pontos positivos. Eles precisam ser ouvidos porque são legítimos conhecedores de toda a complexa sistemática que norteia o funcionamento de uma ILPI. O presente e o futuro de muitas pessoas idosas depende desse relevante e inadiável debate!